Olá, amigos

Agradeço o carinho e a atenção de todos os amigos. A exposição no SESC Ipiranga foi muito jóia.

Publiquei algumas fotos no Flickr.

http://www.flickr.com/photos/silvioalvarezcollage/

E para quem ainda não conhece, meu novo site de colagem já está on line

http://www.silvioalvarez.com.br/

Ah! Resolvi dar um tempo também com a crônica semanal.

Minha parcela arteira requer mais atenção no momento. 

Em breve estarei de volta, não sei se no mesmo formato "Perdido".

Na "despedida"... Segue a crônica "Perdido de Tempo"...



Escrito por Silvio Alvarez às 21h48
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O Perdido de Tempo

O Perdido na Metrópole resolveu dar o braço a torcer e parar de escrever por um tempo. Alega que precisa recauchutar seus atarantados neurônios, todos os três. Diz ele que será rapidim, que retomará a saga crônica de sempre  num piscar de olhos insones e com cisco.

Esse foi o jeito que o nosso arteiro-escrevinhador amigo encontrou para reverter um processo que insiste em se alongar a perder de vista e demais da conta. Todas as santas semanas passava pelo mesmo dilema, permanecia três ou quatros dias aboletado frente ao computador, sem grandes resultados, só esperando a inspiração dar as caras. Neca de pitibiriba. Chegou a dar cabeçadas na parede, a gritar feito Tarzan, até pediu arrego para São Longuinho, - pularia em um pé só se preciso fosse - mas não houve jeito. Depois de passar nervoso que chegue, nosso amigo achou melhor jogar a toalha escrevinhatoria só por um tempim.  Ele não desiste, em breve estará de volta com a corda toda.

Pois é. Há quase cinco anos escrevendo neste espaço, não esperava que algo assim pudesse ocorrer. Não sei ao certo o que acontece...

Parei de fumar no finalzinho de janeiro deste ano e assim permaneço firme e forte. No próximo dia 17 completarei cinco meses de desenfumaçamento geral, total e irrestrito. No dia 8 de fevereiro, participei de um curso de auto-conhecimento relacionado à neurolinguística que propôs uma espécie de regressão à minha já atordoada cachola. Regressei lá longe, nos recônditos remotos das repimbocas infantis das minhas parafusetas traumáticas e puf. Daria para encher uns três baldes com o chororô desencadeado. De qualquer forma, foi fantasticamente espetacular. Fiquei tão demasiadamente leve depois da experiência que poderia caminhar sobre o Rio Tamanduateí. Esqueçam essa parte, ok? Bom, o dito cujo curso mudou minha até então nada mole vida. Sacudi a poeira e dei a volta por cima, definitivamente. Dois meses depois, marquei uma consulta com o coordenador do curso e passei por uma nova experiência desvendadora de passado perdido. Quis acabar de acertar o que faltava. Acertei, sim, tudo traveis.

Como a cabeça voltou a funcionar a contento, o meu lado profissional trabalhador correspondeu. Contratado pela unidade Ipiranga do SESC, realizei um mês de oficinas de colagem e expus meus quadros com toda a pompa e circunstância, teve até convite e vernissage com coquetel. Pode? Não é chique?

Com tamanho agito mental, acho que meus três desorientados neurônios devem ter surtado de vez. Estou ótimo, mas sinto que o cérebro ainda não conseguiu processar todas as informações captadas. Digamos que a minha máquina pensante entendeu de uma vez por todas que agora é mesmo uma nova fase e que a papagaiada atravancadora terminou, mas... Percebo que ela continuará resistindo o quanto puder. Deve dizer lá dentro para seus botões neurológicos... - Para quê mudar, meu amigo, vai dar muito trabalho. Fica assim como está, do mesmo jeitim, e tudo se acerta. Comigo não, violão, chega.

Enquanto a citada odisséia cerebral não acaba... Todas as semanas passava por um nervoso danado por não conseguir elaborar meu texto como gostaria. Já não sou lá um grande selecionador de vocábulos, porém, de uns meses para cá, secou a fonte de vez. A colagem relaxa, fico horas recortando e colando, mas a escrita emperra.

Era para estar triste, cabisbaixo e meditabundo, por decidir dar um tempo com a coluna, minha companheira velha de guerra... Só que estou pra lá de feliz.  Constato a cada dia, mais e mais e aos pouquim, o quanto é maravilhoso recuperar o controle da própria vida, entender ao certo o porquê da maioria  das situações pelas quais passei e, a partir daí, sobretudo, conseguir perdoar o mais próximo de todos os meus próximos. Agora falta pouco.

Quero agradecer a todos aqueles que acompanham meu dia-a-dia neste espaço. Estou muito legal e ficarei melhor ainda. Apenas preciso de um descanso mental, sem cobranças internas de prazo, entre outras. Prometo que volto, não vai demorar. Terei saudade.



Escrito por Silvio Alvarez às 21h36
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Perdido no Centro da Terra

O Perdido na Metrópole vai para o quarto final de semana  consecutivo indo e vindo na ponte-aérea-que-se-vai-de-ônibus, aquela, de Joanópolis a São Paulo. O motorista do busão pinga-pinga, simpático que só ele, até passou a chamá-lo pelo nome. No mais, nosso destemido herói escrevinhador-arteiro, ex-fumante há três longos meses, prossegue acertando a cachola, certo de que sua vida já mudou para melhor e de verdade.

Tem sido muito bom voltar a perambular metropolitanamente. Nessas viagens com a finalidade de tocar em frente o projeto Murographia do SESC Ipiranga, depois de tanto tempo enclausurado entre minhas quatros joanopolenses paredes cafôficas, tenho notado o quanto é legal a gente respirar urbanidade de vez em quando. Ainda mais para quem nasceu e viveu por tanto tempo em São Paulo. Até que não perdi a prática de andar na cidade, de permanecer de pé dentro do ônibus, praticamente surfando com ele em movimento, de ter de esperar em fila disso, em fila daquilo... 

E quanto ao assunto tratado na crônica anterior... Ainda estranho um bocado, mas já estou mais adaptado ao sistema hoteleiro fast food vigente. Digo adaptado pois concordar com ele são lá outros mil e quinhentos.

Mudando um cadim de assunto, gostaria de narrar um fato sassucedido comigo na estação Alto do Ipiranga do Metrô. Sempre tive medo de altura, não é novidade. Só que, de um tempo para cá, o que era uma incômoda vertigenzinha passou a dar as caras como pânico desesperado. A mencionada recém inaugurada estação deve bater todos os recordes de profundidade subterrânea. Êta buraco alto. Ao passar pela dita cuja sinto-me o próprio Julio Verne em Viagem ao Centro da Terra, com o Dante de um lado e o capeta em pessoa do outro. Ainda mais com aquela luzinha de boate azul-funeral ensaiando um efeito especial tétrico. Bem que poderiam chamar o Rick Wakeman para compor o som ambiente. Pois bem, assim que desci do vagão logo vislumbrei o árduo e assustador desafio, três lances de escada rolante. Até aí tudo beleza. O problema é que o arquiteto da magnânima estação decidiu fazer tudo de vidro. Não há como não ter medo de altura com uma escada gigantesca todinha de vidro. Ou eu que sou exageradamente medroso?

Escalei todos os santos de plantão, fechei os olhos, puxei o Rex (minha mala de rodinhas) para perto e comecei a subir na escada rolante dessa que mais parece uma catacumba high-tech do Dom Pedro. Conforme meu esqueleto foi subindo o friozinho na barriga foi chegando como se eu estivesse para embarcar na Montanha Russa do parque temático do Everest. E ao sair de uma logo aparecia outra. Faça-me o favor. Ninguém merece. Três claustrofóbicos lances depois, cheguei lá em riba vivo. Sobrevivi, é certo. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... Daqui para frente, na estação Alto do Ipiranga, principalmente se for para descer, só se puder andar de elevador. 

Na semana passada vivenciei outra situação incomodamente  interessante. Carregando uma mala pesada, repleta de material para recortar em casa, e aflito para chegar a tempo de embarcar no Terminal Rodoviário do Tietê ousei pegar um táxi. Como estava com o dinheiro contado achei melhor perguntar ao motorista quanto que mais ou menos exatamente poderia custar a corrida. Com o CD Player do alvo automóvel rolando a  canção que o Roberto Carlos gravou para homenagear a tão rodada categoria, o condutor do possante fechou questão em trinta e cinco reais. Fiquei quietim, na minha, mas não engoli tão facilmente o valor proposto. Na hora senti um forte cheirim de mutreta no ar. Não é que o dito cujo desligou o taxímetro para que eu não visse o valor real do serviço? Fiquei tiririca, Tom Calvalcante... A trupe toda. Quando percebeu minha indignação, tratou de recuar e diminuir cinco tostões do total da facada.  Aceitei, mesmo porque não tinha lá muita escolha devido ao adiantado da hora. O sujeito desconversou, fez como se nada fosse, voltou a colocar na fuça uma feição de bom moço e seguimos em frente.



Escrito por Silvio Alvarez às 19h52
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Perdido na Recepção

Um pouco desorientado a princípio, como de hábito, mas já total e euforicamente envolvido com o projeto Murographia, do SESC Ipiranga, nosso herói arteiro voltou a perambular profissionalmente por São Paulo.  Foi o segundo final de semana consecutivo de uma série de cinco.

Como é maravilhoso quando estamos envolvidos com algo que gostamos de fazer, que fazemos com amor, né não? Nosso projeto artístico vai bem, obrigado. Coordenando uma animada equipe composta por sete jovens na faixa dos 13, 14 anos, em média, prossigo na produção da colagem gigante proposta pelo SESC. Arte já é algo incrível de se fazer sozinho, imaginem ao lado de uma galera afoita por conhecer e desvendar o mundo, uma viagem.

Quanto às aventuras metropolitanas perdidas, prossigo saindo melhor que a encomenda, nem parece mais que permaneci tanto tempo trancafiado em  meu cafofo joanopolense. Tudo tem dado certim, só ainda não estou lá muito adaptado com o sistema hoteleiro economicamente fast food em voga. Reservei meu apartamento pelo telefone, anotei o código da reserva, do jeitim  que a recepcionista eletrônica mandou. Ela bem que avisou que precisava chegar no referido hotel até as 18:00 horas do tal agendado dia, caso contrário...

Pois bem, depois de viajar por duas horas e meia no ônibus pinga-pinga de sempre e de ficar preso dentro do dito cujo por mais uma hora devido a um daqueles congestionamentos de sempre na Marginal Tietê, cheguei ao albergue multinacional todo esbaforidamente atrasado. Ainda no Metrô, a caminho do alojamento chiquim, pensei cá com meus ainda desajolados botões, desse jeito não chegarei a tempo e terei desobedecido a andróide do telemarketing hoteleiro.  Entrei na fila do check in mais ou menos precisamente 8 minutos depois das 18:00 horas, o horário limite. Como, após a chegada, fui obrigado a permanecer em formação indiana por mais meia hora, fiquei tranqüilo. Concluí, se estou atrasado, esse povo todo da fila também está, do mesmo jeitim, uai. Estava certo, não perdi a vaga. De qualquer forma, ao preencher a ficha, a mocinha da recepção não perdeu a oportunidade de passar uma raspança...

- Veja bem, meu senhor. Quero apenas deixar claro que iremos aceitar sua reserva mesmo depois do horário, mas...

Com uma cara de tacho abobadamente surpreso apreciei o nada receptivo discurso da uniformizada mocinha. Devo admitir aqui, mesmo correndo  o risco de nunca mais poder pisar na dita cuja rede hoteleira, que precisei de um esforço pra lá de enorme a fim de não voar no pescoço desta que mais parecia a reencarnação da inspetora de classe que perturbou os meus primários e escolares dias. Está certo que ela estava trabalhando e cumprindo ordens, muito provavelmente, mas já que disse o que, desnecessariamente, a meu mirde hóspede ver, também teve de ouvir algo desnecessário e estupidamente barraquento. Uai, se ela já havia aceitado a minha incômoda e pouco importante reserva, mesmo que contrariando todas as normas do estabelecimento, para quê vir me dar sermão como se a empresa dela fosse a mais responsável do mundo e eu um reles, indesejado e relapso viajante.  Faltou pouco para não consumar um daqueles pitís de antigamente. Respirei fundo e subi ao nono andar.

No mais, agradeço todos os dias a existência do Metrô de São Paulo. Sem ele, nem quero imaginar como seria ter de me deslocar para cima e para baixo nesta cidade-mundo. Contudo, deixo aqui minha reclamação. A companhia inaugurou duas estações nas redondezas do bairro do Ipiranga. Muito bem, da hora. Só que, surprendentemente, ambas ficam a anos luz de distância do centro de tudo, o Museu do Ipiranga, que fica bem ao lado do SESC, meu destino. Resultado? Daqui a três semanas terei me tornado um expert em ruas e avenidas do Ipiranga, um verdadeiro guia perdido e andante.



Escrito por Silvio Alvarez às 19h50
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Perdido na Hospedagem

Nosso desencontrado herói escrevinhador e arteiro passou o último final de semana em São Paulo. Deixou seu cafofo-retiro, em Joanópolis, e caiu na estrada, rumo à metrópole. Não, desta vez ele não viajou a passeio. Como mencionado na crônica anterior, nosso amigo tratou de arregaçar as mangas de sua parcela artista plástico e foi participar da primeira etapa do projeto Murographia, no SESC Ipiranga. Durante os meses de abril e maio, o nosso perdido personagem coordenará uma galera jovem na produção de uma colagem gigante, que, no final das contas, chegará a 25 metros de largura.

Viajar, ainda mais por um motivo tão nobre e prazeroso, é comigo mesmo. Contudo, depois de tanto tempo enclausurado entre quatro interioranas paredes, creio que levarei um tempim até me acostumar novamente traveis de novo com certas características exclusivas das grandes cidades enormes. A começar pela hospedagem.

Joanópolis é uma cidade maravilhosa, mas não é o que podemos chamar de primor no quesito horários de ônibus. Quando o destino é São Paulo, por exemplo, mesmo que a capital esteja localizada a tão somente 100 km de distância, a rodoviária local oferece três oportunidades diárias de embarque apenas, às 6:00, às  10:00 e às 14:00 horas. No trajeto contrário, a partir do Terminal Rodoviário do Tietê, é ainda mais apertado. O fulano embarca às 9:00 da matina, às 19:00 horas, ou não embarca mais. Pode dormir por lá mesmo. Quando digo que Joanópolis é uma cidade pacata, é porque é pacata, de fato. A grande maioria dos cidadãos não gosta muito de deixar a aprazível localidade. No sentido inverso, então, em tempos de correria tecnologicamente desenfreada, o povo metropolitano deixa para pensar na estância turística quando quer descansar e estrebuchar o neurônios à beira da represa ou ao pé da Cachoeira dos Pretos.

Resultado? Com um compromisso em São Paulo às 10:00 da manhã, fica pra lá de arriscado sair de Joanópolis às 6:00. A odisséia rodoviária pinga-pinga demora cerca de duas horas e meia, sem contar, lógico, o risco de ser surpreendido por um congestionamento-monstro logo na chegada, nas marginais da Cidade da Garoa (que inunda). 

Sendo assim, como o trabalho no SESC Ipiranga acontece aos sábados, conclui cá com meus pouco exercitados neurônicos botões, que o melhor a fazer é desembarcar em São Paulo já na sexta-feira, aboletar-se num hotel não muito longe da unidade e ficar por lá de prontidão a fim de evitar contratempos. Como a metrópole dispõe de uma gama gigantesca de hotéis, deixei para cuidar do importante detalhe apenas na quinta-feira. Péssimo negócio. Pois é. A essa altura, as grandes redes econômicas já estavam para lá de abarrotadas. O pior foi ser obrigado a saber deste impedimento através dos "simpáticos" e nada pessoais sistemas de reserva express, automática e eletronicamente via telefone. Está certo que os referidos hotéis são econômicos, fast food de cabo a rabo, mas será o Benedito que eles não poderiam gastar só um cadim a mais com uma telefonista para "estar nos atendendendo"? Ou será que, com este excesso de mordomia, poderíamos ficar muito mal acostumados? A meu mirde e ultrapassado ver, o atendimento on line é ainda pior. Ao efetuar a reserva através destes sistemas, só acredito que funcionou quando esparramado na cama do apartamento do dito cujo, todo confortavelmente pimpão.

O jeito foi procurar por uma hospedagem alternativa. Descartada a possibilidade de incomodar os amigos, busquei os hotéis mais simples, aqueles mais baratos e sem tantos não-me-toques. No bairro do Ipiranga, contudo, não dei lá muita sorte. Sem querer ser preconceituoso, e sendo, não gostei muito dos nominhos dos estabelecimentos estabelecidos na região: Flor do Ipiranga e Romantic.

Uai. O primeiro está mais para o de uma padaria e o segundo... Sugere uma atividade que não é exatamente a que pretendo desenvolver na profissional ocasião.



Escrito por Silvio Alvarez às 23h32
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Perdido na Colagem Gigante

O Perdido na Metrópole tem uma novidade nova pra contar. Nos meses de junho e julho do ano passado, nosso herói escrevinhador-arteiro expôs os seus trabalhos de colagem em duas estações do Metrô de São Paulo. Foi uma experiência fantástica que rendeu muitos frutos. Tanto que...

A programadora do SESC do bairro do Ipiranga passou por lá, conferiu a exposição, gostou e julgou por bem contar com minha mirde porém criativa presença no projeto Murographia. Trata-se de um projeto mensal, voltado para jovens de 13 a 18 anos, que proporciona uma troca de conhecimentos, experiências e percepções entre artistas que atuam no meio urbano e jovens freqüentadores da unidade ou vindos de ONGs que realizam trabalhos voltados para a juventude.

Durante as oficinas, transmitirei à galera boa parte do que sei a respeito da técnica e juntos produziremos uma colagem gigante, sobre um mapa-mundi desenhado em um painel de madeira de 5 metros x 60 cm. A partir daí, o trabalho, já demasiadamente enorme, será fotografado e ganhará proporções ainda mais maiores de grande, 25 x 3 metros. A colagem GG extra large ficará exposta por um mês em um muro localizado no quintal do SESC.  Como se já não fosse um grande desafio para este colador de papel recortadim, logo em seguida, no mês de maio, o espaço promoverá também  uma exposição com o resultado do projeto e com 28 dos meus quadros.

Já consciente e com todas as fichas devidamente desmoronadas, de que isso tudo está mesmo acontecendo comigo, preparo a cachola para curtir ao máximo este que surge como o maior desafio profissionalmente artístico da minha existência.
Inspirada na data comemorativa do Dia da Fraternidade Brasileira, a colagem tratará do tema deslocamento humano, fronteiras e tolerância inter-comunitária, na contemporaneidade. Será uma viagem, de fato.
A idéia, como sempre, lógico, é passar a narrar aqui um pouco do que sassucederá nesta que promete ser uma formidável aventura artística. Como o trabalho será em São Paulo, deixarei meu cafofo interiorano e voltarei a me perder na metrópole por mais ou menos exatamente cinco finais de semana. Até já aprontei o Rex (minha inseparável mala com rodinhas). 
Como os amigos leitores já devem ter percebido,  aos poucos vou abandonando a clausura joanopolense e retomando a jornada existencial de onde parei, antes tarde do que nunca, né não. Depois de ser DJ, promotor de eventos, proprietário de jornal, radialista e colunista, a vida me reservou mais uma... Volto a dar as caras para o mundo bater, agora mais efetivamente como artista plástico. 

Pois é. Quando a depressão pintou no meu pedaço, há  cerca de 15 anos, e comecei a não render tanto como antigamente, o jeito foi externar o que sentia através da colagem. Como é que poderia imaginar que esta espécie de terapia ocupacional  intuitiva, experimentada na raça por mais de 10 anos, poderia um dia florescer como a principal razão de seguir em frente. Foi o que aconteceu, uai.

Estou muito feliz de, através da colagem, poder mostrar como vejo o mundo, o que penso a respeito da vida, o que se passou e o que se passa aqui dentro do âmago das repimbocas das parafusetas do meu ser... Como se já não fosse o bastante, ainda terei a oportunidade de transmitir para os jovens algo que aprendi praticamente sozinho, fazendo e desfazendo, metendo as fuças... Experimentando.

O difícil mesmo, durante o evento, será descobrir quem é o mais jovem entre todos os jovens. Com 42 primaveras invernais de outonos veranistas nas costas, mas com espírito de 15, jovialidade, de ambas as partes, é o que não vai faltar.

O Perdido na Metrópole segue em frente, mais e mais achado a cada dia, mostrando que jamais devemos desanimar ou chorar as pitangas nos momentos adversos. Pois, com toda a certeza, mais cedo ou mais tarde, a vida dará a tão almejada reviravolta e nos deixará com uma colossal cara de tacho, daquelas, de quem não acreditou na própria capacidade. 



Escrito por Silvio Alvarez às 21h30
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Perdido no Desestressamento

Jurandir não é mais aquele. Pois é, descobri que o cãozinho mencionado na crônica passada era, na verdade, uma cadela. Até cheguei a tentar afastar a recém chegada cadelinha a fim de que meu coração não amolecesse, mas não teve jeito. Devidamente alimentada pela vizinha da esquerda, a nova amiguinha conquistou o pedaço. Passou a reinar nas imediações cafôficas como um animal de estimação coletivo, com todos os mimos a que tem direito e mais um pouco.  Seu maior divertimento no momento é o de sumir com os capachos das casas.  Isso quando não resolve também fazer cocô bem na entrada das mesmas. A agora rebatizada  serelepe canina prosseguirá alegrando nossos dias até que alguém perca a paciência.

Mudando de assunto... Ontem passei por uma prova de fogo. Devo registrar - e comemorar - que, ao escapulir incólume da experiência que narrararei a seguir, provei, definitivamente, que estou livre de uma série de incovenientes químicos neuroniais. Refiro-me principalmente à ansiedade, que tanto perturbou este vosso amigo que lhes dirige os vocábulos, por muitos e muitos anos. Quantas vezes, por culpa deste estressante e aflito componentezinho, acabei por rodar a baiana desnecessariamente, complicando toda uma situação deverasmente corriqueira. Pois é, admito, já tive meus dias de barraqueiro. Mas hoje noto que era bem mais por uma necessidade interna do que propriamente pelo meu jeito de ser. Sempre fui de paz, oras. Só não gosto de fazer papel de palhaço sem cachê, mas até aí quem é que gosta, né não?

Precisei enviar dois CDs com as fotos de meus quadros a um espaço cultural de São Paulo. Depois de fotografar alguns trabalhos que faltavam e de correr para preparar o material virtual, restou-me tão somente o dia de ontem para as últimas providências. Contudo, para que a encomenda chegasse na data prometido, via SEDEX, deveria postá-la  impreterivelmente até às 15:30 horas. Ajeitei tudo nos trinques dos conformes, combinei com o fotógrafo, com o webdesigner e, em vista da importância da tarefa, até que fui muito menos chato e exigente que de costume.

Mesmo com todo o planejamento dispensado, ontem foi um daqueles dias que tudo parece programado para dar errado. Choveu bem na hora de ir aos Correios, ao pegar um taxi o motorista não quis esperar porque tinha uma outra corrida mais lucrativa, o material virtual não ficou pronto a tempo e cheguei na agência depois do horário, enfim...

À primeira vista tudo parecia ter dado muito errado, porém... Ao terminar a odisséia, vi que foi graças ao imbróglio que pude constatar o mais importante...  Que, pela primeira vez em muito tempo, consegui passar por uma situação estressantemente inusitada sem sair do prumo uma vezinha só que fosse. Sequer tive vontade - ou necessidade - de ficar bravo com alguém ou com o fato em si. Não dá para descrever a emoção de se ver livre de tal incômodo. Em vez de armar o barraco e queimar neurônios quem falou mais alto desta vez foi a minha parcela caetanicamente caymmica. 

Não deveria haver a necessidade de elaborar e de saber o porquê de tudo o que acontece, mas creio que esta conquista deveu-se em parte à saída da nicotina do meu organismo, já que estou há mais de dois meses sem fumar. Ingerir menor quantidade diária de café também deve ter ajudado um cadim. 

Minha maior diversão atualmente é a de acompanhar o desenrolar da limpeza mental,  curtindo vivenciadamente, dia após dia, cada evolutiva novidade. Em algumas ocasiões, como a mencionada acima, nem me reconheço.  Outra diversão é admirar a cara de espanto dos poucos vizinhos que, ao me verem sair às 6 da matina para andar e encher os pulmões de gasoso bem-estar, devem pensar com seus interioranos botões... - Ué, esse aí não era aquele que vivia trancafiado em casa, meio de mal com a vida?

- Sim, sou eu mesmo (teoricamente falando)... Agora em mais carne do que osso.



Escrito por Silvio Alvarez às 20h22
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Perdido nas 42 Primaveras

O Perdido na Metrópole fica mais maduramente experiente esta semana. Nosso amiguinho escrevinhador- arteiro comemora 42 primaveras invernais de outonos veranistas com muita alegria no coração. Graças aos recentes e retumbantes acontecimentos, nosso agora mais do que encontrado herói fará de conta que é o seu primeiro aniversário. Ele já mudou de idéia, mas bem que pensou em liberar totalmente a criança-livre de seu saltitante ser em uma festinha infantil de arromba* (é uma gíria "nova"). Por pouco não contrata um bufê com piscina de bolinhas (e salva-vidas), música ao vivo com show do Nelson Gonçalves cover, Grapette à vontade e decoração temática do Barbapapa.

Puxa, puxa que puxa. Quase que não acredito. Cheguei até aqui, vivo, com saúde, e com o maior pique para recuperar o tempo perdido. Vai ter anjo da guarda eficiente assim... No céu. Devo agradecer aos meus santos protetores sem cabeça. Sim, agora sou devoto dos santos sem cabeça. Como assim??? Eu explico. Todas as manhãs saio para caminhar e deixar o ar sadio invadir os meus pulmões de recente ex-fumante. Em meio à deslumbrante beleza da pacata Joanópolis, passo obrigatoriamente de livre e espontânea vontade por uma igrejinha, daquelas de beira de estrada, típicas do interior. A capelinha, com altar e tudo, fica aberta e à disposição de quem quiser dar uma rezadinha básica, pensar com os botões, meditar cadim, enfim... Só que alguém de mal com a vida e sem respeito para com o próximo invadiu o sacro recinto e teve a pachorra de quebrar todas as cabeças das estátuas. Pode? São João Batista sem cabeça até faria sentido, mas Santo Expedito, São Jorge... Não tem cabimento. Como o lugar traz uma paz imensa ao meu pouco espiritualizado coraçãozim, tornei-me devoto dos santos sem cabeça. Desde então, peço todas as noites aos descabeçados intercessores para que eu consiga manter o equilíbrio conquistado a duras penas, com a permissão de Deus, lógico, mas com o meu esforço. E bota esforço nisso.

Mudando de assunto, dia desses conheci um novo coleguinha, o Jurandir. Creio que devo pedir desculpas aos leitores homônimos, pois o meu Jurandir é o cãozinho vira-latas de focinho preto mais simpático que conheci até hoje. Todo pimpão e aparentemente ainda sem dono, Jurandir deve ter um mês e pouco de vida. Gostei dele, sim, só que ele um pouco insistente. Caí na besteira de alimentá-lo no dia em que nos conhecemos. Foi paixão ao primeiro prato de arroz empapado com leite. Jurandir agora não desgruda mais, retorna ao portão de casa todos os santos dias. E como uiva o danado. Adoro cachorro, qualquer raça de cachorro, mesmo os viralatês, mas não posso ter um cão, não nesta fase de minha existência. Ainda não passou totalmente a tristeza de quando perdi as minhas duas  cadelas hollywoodianas, Ingrid Bergman e Bete Davis. Não sei o que fazer com o Jurandir. O maior problema é que ele tem uma carinha de "eu te amo, não me abandone".  Dá vontade de colocar no colo e não tirar mais. Parece que  sabe que tenho coração mole. Ele não quer bem uma ajuda, quer que eu o adote para sempre, isso sim.

Por essas e por outras, Jurandir fez com que eu refletisse um cadim a respeito do valor da amizade na minha até então tropicante jornada. Quando passei pela fase da depressão, que durou um longo e tenebroso tempo, meio que desenvolvi um irritante jeitim de grudar nos amigos, de encará-los como uma tábua de salvação, um lance meio sanguessuga mesmo, como se desejasse que vivessem por mim, que resolvessem meus problemas. Eu não fazia por mal, claro, mas este esquema não poderia dar certo. Quando os amigos atendiam meus pedidos eu ficava sem aprender de verdade como sair do buraco em situações pra lá de adversas. Pois bem. Os amigos que mais me ajudaram recentemente foram aqueles que tiveram a coragem de dizer... - Sai dessa, Jurandir. Se vira, mano... Aqueles que pararam de dar uma força ou os que se afastaram, muito provavelmente cansados de não ver resultado ou esforço maior de minha parte, também são importantes, talvez até mais do que os mencionados anteriormente. Aniversariando e aprendendo.

Será que o Jurandir quer mais papinha? Ele está no maior berreiro lá fora.



Escrito por Silvio Alvarez às 08h46
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Perdido nos Resgates

O Perdido na Metrópole segue em frente a todo vapor. Ao agitar e colocar na linha a sua até então monótona e desregrada vidinha, nosso amigo causou um furdunço danado no arquivo "morto" de sua cachola. Como ainda precisa terminar de analisar e processar a avalanche de informações recebidas nos últimos tempos, as pastas das lembranças estão todas espalhadas pelo chão cerebral. Uma bagunça só. Atordoados com tamanha quantidade de papel fora do lugar seus neurônios arquivistas não sabem bem o que fazer. Mas, pelo andar da carruagem, do jeito que as coisas caminham rápido, tudo voltará logo para o lugar certo.

Por aqui está tudo certim, turma. Ando um pouco confuso com as novidades e ainda sem crer que tudo está mesmo acontecendo comigo. Trabalho para que a nova realidade conquistada seja mantida para todo o sempre. Eu não imaginava ser capaz de operar tamanho milagre. Mas aconteceu, ué. E já não é mais aquela especulação que fazia antigamente, aquela do "eu quero ser", do "um dia eu serei"... Sou um novo cara, de fato.

Além da caminhada matinal pelas ruas do meu bairro joanopolense, passei também a ir quase todos os dias ao centro da cidade para resolver as pendências cotidianas caseiras. Se bem que aqui, na pacata Joanópolis, tudo fica mais ou menos exatamente no centro. Ou seja, abandonei a clausura caseira de uma vez por todas. De tanto permanecer trancafiado em meu cafofo os vizinhos ainda não sabem muito bem quem eu sou, mas aos pouco vou me reapresentando. Tudo faz parte de uma espécie de resgate. Sim, trata-se do resgate de uma vida, da minha vida.

Para dar ainda mais gás à maravilhosa nova realidade estive em São Paulo na semana passada. Fui confirmar uma novidade, que em breve será divulgada, e também para visitar um casal de amigos do qual sou padrinho. Eu não os via desde o casamento. Pode? Poder não pode, mas parece que compreenderam tamanha ausência. Que bom! Beto e Carol estão casados há 12 anos e há gloriosos 8 meses receberam o maior presente de suas vidas, o Matheus. Demorou, mas chegou a hora de visitá-los. Foi bárbaro. Para o Matheus levei um pato-fantoche cor-de-abóbora que foi fazendo qué-qué daqui até lá. Penso que, com o presente, estarei mais presente em sua infância. E ele poderá dizer sempre, este é o pato do meu tio. 

Conhecer Matheus e rever seus pais foi uma das experiências mais prazerosas de toda a minha existência. Troquei fralda, dei papinha, fiz tudo o que tinha direito e mais um pouquinho. Parecia até que o garoto recém chegado ao mundo que ali estava não era tão somente o filho de dois dos meus melhores amigos. No meu coração, aquele molequinho todo serelepe também era eu, o meu novo eu. Enfim, resgatei o bebê perdido nas entranhas das repimbocas das parafusetas do meu ser. Não preciso dizer que a emoção foi demasiadamente mais maior de enorme, não é mesmo?

Retornei ao meu QJ arteiro em Joanópolis e a semana passou como um raio, de forma maravilhosamente proveitosa. No meio da tarde do domingo, estava eu aqui curtindo a modorra espetacularmente fantástica quando recebo uma ligação desesperada da Glaura.  Amiga de muitos anos, ela mora perto de casa, às margens do rio (quase dentro dele), e está de molho na cama, resultado de uma queda e de uma conseqüente rachadurazinha na bacia.

Glaura ligou para pedir socorro. Choveu demais e  a água invadiu sua casa. Sem poder se locomover, com a água entrando, o desespero tomou conta da nossa amiga, lógico. Corri ao seu encontro. Ao chegar ao local não tive muito o que fazer a não ser chegar o mais próximo que pude da ilhada residência, com a água pelos joelhos. Que sufoco. Quem sempre vê esse tipo de catastrófica ocorrência apenas pela TV não pode nem imaginar como é. Tentei vestir minha fantasia de Homem Aranha Procurando Nemo, mas não deu tempo. Glaura foi salva por um heróico policial militar, todo metido a forte, que a carregou em seus braços musculosos. Magoei. Saio de casa, corro risco de vida e outro herói chega primeiro. Assim não vale.



Escrito por Silvio Alvarez às 17h09
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Perdido, O Lutador

É um pássaro? É um avião? É um trombadinha da melhor idade? Não, nada disso. É o Perdido na Metrópole que resolveu correr para recuperar a boa forma.

Esquelético do jeito que é, tendo desenvolvido uma considerável e nada estética barriguinha nestes quase dois meses de abstinência nicotínica, mais parece que o nosso amigo escrevinhador-arteiro engoliu uma azeitona transgênica.

Acreditem se quiser, passei a correr todas as manhãs. São 45 surpreendentes minutos de desenferrujante atividade física. É a mais absoluta verdade, juro. Já vai fazer um mês que estou nesta nova e bem mais saudável vida. Pois é, os vizinhos ainda não entenderam patavina. Comecei a acordar antes do que o galo (teve um dia que acordei e ainda ouvi o guarda-noturno) e a sair de casa lá pelas seis da matina para correr, ou melhor, para andar rápido. Os meus três ofegantemente serelepes neurônios, agora devidamente rebatizados para esta nova e patlética fase - Franck, Marilson e Vanderlei - estão pra lá de desorientados. Não é para menos, seu amo e senhor, de fumante inveterado, de sedentário contumaz, passou a querer atacar de Rocky, o Lutador em versão joanopolense, da noite para o dia. Sem a empolgante trilha sonora e sem a parte do ringue, lógico.

Eu nunca, jamais, em tempo algum pratiquei esporte direito, não nesta encadernação, pelo menos. Algumas poucas e frustradas aventuras não contam. Antes de saber que não nascera para herói olímpico, tentei de tudo um pouco. Atletismo não deu. Sempre fui muito magro, além da conta, precisava correr com pedras nos bolsos a fim de evitar uma decolagem. No salto, certa vez, meus coleguinhas chegaram a pensar que eu fosse a vara. Basquete era um outro inferno. A minha coordenação motora de campeão de palitinho não colaborava lá muita coisa. A bola não parava de pular, aquela desgraçada. E ainda tinha o lance esquisito de não poder andar. Como é que eu poderia chegar mais perto da cesta sem andar? A NBA lamenta até hoje, mas também não deu pra mim no basquete. O vôlei eu curtia um pouco mais. Só que cansa esperar no banco de reservas, né não? Que Jornada nas Estrelas que nada, meu saque recebeu outro apelido: Perdido no Espaço.

Futebol, então... Ô coitado, nem pensar. Creio que já contei essa história aqui, lembro como se fosse hoje. Traumatizou deveras. Aconteceu no Colégio Jardim São Paulo. Creio que tinha uns oito aninhos à época. Ginásio lotado, caíram na besteira de me escalar para goleiro de futebol de salão. Péssima idéia. Eu acabei permanecendo todo o tempo praticamente dentro do gol apenas contando as bolas que passavam por um lado, por outro, principalmente por debaixo das pernas. Ô dó. Abri o maior berreiro lá mesmo em quadra. Na arquibancada, meu pai e meu avô demonstravam não terem gostado nadinha. Acredito que foi neste exato momento de minha trajetória que  eles perceberam, de um vez por todas, que eu não seria um craque fenomenal do futebol europeu.

Voltando à atualidade, devo considerar que penei um bocado ao estrear como maratonista matinal. Esta anta quase atrofiada que vos escreve, há sabe-se lá quanto tempo praticando tão somente movimentação de mouse, na hora de sair para correr, caiu na besteira de deixar pra lá alguns cuidados básicos.  Esqueci, por exemplo, de fazer aqueles alongamentos todos antes. Pode? Resultado? Deu cãibra até na alma.

Esculhambações costumeiras à parte, por uma série de motivos, a maioria esdrúxulos, nunca imaginei que alcançaria esta qualidade de vida. De quebra, durante o exercício matinal, aproveito para cuidar também da saúde espiritual. A paisagem de Joanópolis, estância turística a 100 km de São Paulo, ajuda um bocado neste quesito. Ao sair de casa com o sol começando a dar as caras a paisagem fica ainda mais bonita. Até parece que estou no paraíso, no meu paraíso pessoal.



Escrito por Silvio Alvarez às 08h24
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O Ex-fumaçado

O Perdido na Metrópole está ótimo, nunca esteve tão bem. Está mais para Achado do que para Perdido. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto... Os seus atarantados neurônios (todos os três) ainda não entenderam lá muito bem o que está se sassucedendo na cachola que aprenderam a chamar de lar. Não é para menos. No dia 17 de janeiro, nosso desencontrado herói julgou por bem parar de fumar, assim, da noite para o dia. Não contente, logo em seguida, alterou todo o seu sistema pensante ao participar de um curso de fim de semana, repleto de dinâmicas de auto-chacoalhamento (leia-se auto-conhecimento), que, diga-se de passagem, mudou sua vida radicalmente para melhor. Enfim, nosso amiguinho anda tão diferente timarmente que nem ele mesmo mais se conhece. 

Agora sim possuo a segurança necessária para alardear a novidade... Queridos leitores, parei de fumar. Depois de poluir a esquelética carcaça, as entranhas, e a alma por vinte longos e enfumaçados anos, com dois maços de cigarro por dia, tomei esta dalailâmica greenpeaceca decisão. De lá pra cá, até respirar estou respirando, acreditam? Uhuuu! Pois é. Será que alguém já morreu de overdose de oxigênio???

Eu fumava tanto no meu escritório-ateliê, onde fica o Genival, meu computador, tanto, que as paredes amarelaram, tamanha a quantidade de nicotina. Genival também ficou todo amarelo, coitado. E os vidros da janela, então? Parece até que apliquei uma camada de "Insulfumo".

Depois de tanto tempo fumando já nem sabia mais o que era ter olfato, paladar... Fôlego? Bastava subir dois lances de escada para começar a colocar os bofes para fora. Além do mais, comecei a sentir umas dores esquisitas aqui, outras acolá, tudo muito perto do coração. Tô fora! Chega! Já desperdicei muito da minha vida por culpa desse troço fedido e sem graça. Quantas roupas eu queimei? Quantos bancos de automóveis dos amigos furei? Em quantos lençóis abri um rombo por querer fumar antes de dormir, correndo o risco de fumar dormindo e provocar um incêndio? Quantos momentos agradáveis eu perdi por ter de sair de um ambiente social para poder fumar? Quantas refeições eu deixei de apreciar direito porque não via a hora de acender logo o famigerado?

Os primeiros vinte dias são os mais complicados, admito. Para preencher a lacuna oral, optei por chupar balas, uma atrás da outra. Se eu for diabético, saberei agora. O que também ajudou muito foi ter conseguido alterar o fuso horário. Tenho ido dormir antes das 11 horas da noite e acordo lá pelas cinco da manhã, o sol ainda nem nasceu. A mudança fez com que os dias ficassem aparentemente mais curtos, o que me permitiu disciplinar melhor meus horários. Também passei a sair para andar todas as santas manhãs. Os vizinhos chegaram a pensar que algo de muito grave havia acontecido em casa. Faz sentido. Até pouquíssimo tempo atrás, para este escrevinhador sedentário, contumaz praticante de movimentação de mouse, sair de casa às seis da madrugada, só mesmo por algum motivo muito tragicamente catastrófico. Depois da caminhada, todo esbaforido, preparo logo um litro de vitamina no liqüidificador. Misturo o que tiver dando sopa. A de ontem continha leite, kiwi, manga, goiaba e banana. Se tirei as cascas? Só da banana e do leite. Do resto daria muito trabalho. O poderio nutritivo-natureba do meu preparado-bomba é deverasmente porreta.

Não é bom comemorar muito? Não faz tanto tempo assim que parei de fumar? Posso recair? Concordo, em número, gênero e "igual".  O tempo dirá se parei de fumar de fato ou não, ok? Apenas suplico que não façam como um psiquiatra que conheci recentemente. O dito cujo fez questão de ressaltar de forma tão categoricamente empolgada que eu ainda me encontro no fatídico período das recaídas, que cheguei a pensar cá com meus botões... Esse cara está torcendo para que eu recaia só para ter o gostinho de comprovar que o que diz está certo. Só porque o doutor quer, viu. Pode tirar toda a sua cavalaria psiquiátrica da chuva. Não recaio, não recaio, não recaio.



Escrito por Silvio Alvarez às 10h07
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Perdido Silva

O Perdido na Metrópole resolveu dar um upgrade na sua até então pra lá de atordoada cachola. Nosso herói arteiro prossegue freqüentando a terapia, parou de fumar há mais de um mês, todavia, achou que poderia acelerar ainda mais o seu programa de crescimento com algo que cansou de ouvir falar que funciona. 

A convite do agora padrinho David Freitas, com o quem mantém amizade desde os áureos tempos do colegial no Liceu Pasteur, resolveu participar do Leader Training promovido pelo Núcleo Ser, no município de Louveira - SP.

Mais conhecida como LT, trata-se de uma oficina vivencial destinada, sobretudo, a quem deseja assumir a direção da própria vida e pretende deixar de dar tantas cabeçadas perdidas no batente da porta da esperança. O Leader Training propõe uma reflexão profunda sobre os resultados que você vem alcançando em sua vida profissional e pessoal. Contudo, convém ressaltar que o LT não é uma terapia de grupo.

Pois bem... Há cerca de seis anos, alguns amigos começaram a falar no pé do meu ouvido, com entusiasmo deverasmente convicto e saltitante, a respeito de um curso de fim de semana que havia lhes transformado a vida radicalmente para melhor. Como quando a "esmola" é demais o santo desconfia, ressabiado, achei curioso, interessante, constatei que os tais amigos em questão não eram lá de se animar com qualquer coisa, porém, conclui na ocasião que ainda não havia chegado a minha hora.  De lá para cá, passei a arrumar desculpas para escapulir da oportunidade, uma atrás da outra. Quase sempre o motivo era o dinheiro, ou melhor, a falta dele. Tanto era desculpa esfarrapada, que hoje ainda não tenho grana sobrando e fiz o curso do mesmo jeitim.

É tudo ainda muito recente, mas já posso dizer que funcionou. Participei da vivência no tempo certo, no meu tempo. Gente do céu, que baita sacudida existencial que eu tomei. Em menos de três dias, conseguiram localizar e neutralizar boa parte do que empatava o vai e vem neuronial das minhas estranhas entranhas. Se é que eu ainda não resolvi todos os meus problemas emocionais, agora está na cara que tudo ficou bem mais fácil.

Escrevo há anos para este espaço contando o que acontece de mais relevante em minha vida. Só que desta vez a relevância vital é tão demasiadamente relevante que este vosso amigo tem a coragem de dizer que a sua vida mudou de verdade, tomou outro rumo. A exemplo do cigarro, que já parei há um tempinho e que estava segurando de contar para evitar recaídas, cheguei a pensar em esperar um cadim mais pra contar esta outra novidade. Só que a sensação que inunda a piscina Regan do meu ser, neste exato momento, é tão maravilhosamente retumbante, tão incrivelmente bárbara, tão euforicamente linda, que não conseguiria ficar de bico calado. 

Vivi algo mágico, surpreendente. Em um grupo de 80 maravilhosas pessoas, hoje meus irmãos da família Silva, mergulhei fundo atrás das repimbocas das parafusetas emocionais que impediam minha evolução. Com as caraminholas bloqueantes devidamente localizadas, fizeram com que eu as trabalhasse e... Puf. Sim, ao término da vivência as limitâncias emocionais todas não mais existiam. Ou sumiram por completo ou passaram a perambular em um local de difícil acesso, bem longe.

Resisti ao curso o quanto pude. Não porque quisesse resistir propriamente, mas porque algo em mim não queria mudar. Ou será que julgava não ser merecedor de tal mudança? Sim, mais e mais daquelas crenças inúteis e grudentas. Noto que, com o passar do tempo, nossa máquina pensante não quer mais tanto saber de radicais alterações. Ela já está tão acostumada a fazer as mesmas coisas sempre do mesmo jeitim, que rejeita maiores reviravoltas. Ela, minha cabeça, não tinha o que querer. Quieta! Junto! Veeeeenha! Desta vez, ou ia, ou rachava. Foi!

Estou deveras emocionado ao escrevinhar esta crônica-testemunho, lógico. Nem poderia ser diferente. Em 42 primaveras invernais de outonos veranistas, passei por internações, por uma dúzia de psiquiatras, analistas e psicólogos, tomei dezenas de medicamentos, florais de Bach, Mozart, Vivaldi, busquei refúgio em um bocado de religiões... E nunca, nunca, jamais e em tempo algum consegui permanecer mais de uma semana com uma sensação tão boa, tão agradável... Nunca me senti tão demasiadamente vivo e pleno!

Renasci... Literalmente!



Escrito por Silvio Alvarez às 09h30
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Uma auto-ajuda na auto-estima

No ano passado, este vosso amigo realizou exposições de suas colagens em duas estações do Metrô de São Paulo. Em ambas, na Vila Madalena e no Jardim São Paulo, a companhia disponibilizou um livro de visitas. Quem passou e visitou a mostra, batizada de Perdido na Metrópole, pôde deixar um comentariozim a este eterno aprendiz arteiro.

Com a correria da montagem, durante o período da exposição, não consegui dar mais que uma rápida espiada no conteúdo do dito cujo. Mas agora, mais de seis meses depois, eis que o livro chega finalmente às minhas mãos. Passei algumas horas, todo egocentricamente  pimpão, apreciando as mensagens que muito contribuíram para a auto-ajuda da auto-estima deste tropicante ser perdido que aos pouco vai se achando.

É muito legal constatar que os usuários do Metrô, geralmente com pressa, indo ou voltando do trabalho, têm a pachôrrica boa-vontade de parar, visitar a mostra e ainda deixar um recadinho para este aventureiro recortador de papel.

Tem de tudo no livro. Obviamente, que alguns não perdem a oportunidade de fazer gracinha. Contudo, a avassaladora maioria dos recados é bastante positiva. Fez com que  aumentasse a minha vontade de seguir em frente com as artes plásticas, mesmo que, ainda e por enquanto, não tenha acontecido nada lá muito relevante no sentido financeiro. A paciência faz parte do negócio, né não?

Expor no Metrô de SP é uma experiência fantástica. Devo dizer que não gosto muito de receber elogios rasgados sem que estes tenham algum embasamento. Porém, tratando-se dos usuários do Metrô, o lance é bem diferente. Acredito que quem interrompe a correria cotidiana para comentar uma exposição artística é porque, já de antemão, gostou pelo menos um pouquinho do que viu.

Separei algumas das mensagens, aquelas que julguei mais originais e interessantes.

· "Parabéns por viver de arte neste país". (Rodolfo)

Sobreviver de arte ainda não é meu caso, Rodolfo, mas estou lutando.

· "Idéia genial. Deveria ser exposta também em Nova York" (Marilice)

Sério, Marilice? Eu concordo com você em número, gênero e "igual". Adoraria expor nos States.

· "Você é um vanguardista. Ora criando um cenário quimérico, ora elaborando  uma cuidadosa crítica social, mas sempre com uma forte e rara beleza artística. (André)

Vanguardista? Quimérico? Tem certeza que você não é o ministro Gilberto Gil disfarçado de André?
 
· "Ótimas sacadas e  percepção aguçada do cotidiano, não sem uma dose de sarcasmo". (Diego, estudante e curioso).

Você pode até se achar apenas um curioso, Diego, mas foi o único que conseguiu ver o sarcasmo, conscientemente empregado em todos os meus trabalhos.

· "Esta exposição é um excelente descanso, um alívio após uma terça-feira dura no telemarketing". (Maíra)

Poxa, Maíra, que  bom que ajudei no teu relax depois do trampo de telemarketing. Fiquei tão feliz que, na próxima exposição, "estarei produzindo" um quadro em sua homenagem, viu. Seu recado foi muito importante para mim.

· "O artista trabalha com conceitos e críticas profundas da sociedade contemporânea. E é possível até mesmo conhecer um pouco da vida do próprio artista". (AP)

Um pouco, AP? Dá para saber quase tudo da minha vida analisando os sinais presentes nos meus quadros. Certa vez, um amigo psicanalista analisou alguns dos meus trabalhos e cheguei a pensar que estava conversando com a mãe Dináh.

· "Ao conseguir parar em meio à correria de uma noite de sexta-feira, escapei um pouco da louca rotina que você tão bem representou em suas obras". (Larissa)

E eu fiquei muito, mas muito feliz mesmo de poder te proporcionar este momento, Larissa. Está vendo que troca bacana que a arte propicia?

· "19h57 - Adam chega. 20h12 - Demorou, Junior. Esperei até agora, mas vou embora. Me liga". (Adam)

Ah, que legal, Adam. E o livro de visitas da minha exposição lá é lugar pra deixar recado para o seu amiguinho, pontual criatura?

· "Você estava brisado quando fez as obras, cumpadi"? (Henry)

Você quer saber se eu fumei maconha antes de fazer os quadros, é isso? Não, meu amigo Henry, produzi tudim de cara limpa mesmo.



Escrito por Silvio Alvarez às 18h44
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O PAC do Perdido

O Perdido na Metrópole resolveu lançar uma espécie de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), só que pessoal e intransferível, ou seja, em benefício próprio. Já que está em terapia há um mês e que o processo demonstra ser mesmo irreversivelmente positivo, para que sua cabeça entre mais rapidim nos eixos, achou por bem aumentar o número de encontros com o seu psicólogo. Descartada a possibilidade de ter um profissional em casa de plantão, o jeito foi marcar duas sessões por semana. 

Como começou a perceber na prática que o lance terapêutico realmente funciona, que achou o profissional certo e que agora parece ser mesmo o momento de endireitar a vida definitivamente, nosso amigo escrevinhador e arteiro não consegue mais conter a ansiedade. Ele não vê a hora de desfrutar de vez toda a liberdade que a maioria dos demais mortais demonstra ter. Ainda confuso, bem longe de querer dizer que é um santo, o nosso herói hoje compreende que, por uma série de fatores inércicos, não teve lá muita oportunidade e discernimento para escolher boa parte do que vivenciou até então. Foi como se tivesse embarcado e viajado um tempão em um bonde desgovernado. Agora, sem mais delongas, quer porque quer colocar ordem na casa e passar a mandar em seus neurônios, todos os três, de forma bastante democrática, diga-se de passagem, do mesmo jeitinho que o Chávez lá na Venezuela.

Pois é. Minha cabeça está tão deverasmente atrapalhada, com tantas idéias perambulando de um lado para o outro concomitantemente ao mesmo tempo que já não sei mais se vou ou se fico, se fico ou se vou, se caso ou se compro uma bicicleta, se escalo o Everest ou se aguardo o andar da carruagem aboletado em riba de um pé de couve. Descobri em terapia que sou um tremendo de um burro. Sou um burro emocional. Eu explico. Concluímos que posso até ser um cara esperto em algumas áreas pensantes, mas não disponho de um pingo sequer de inteligência emocional. Qualquer bobagem, ainda e por enquanto, é capaz de desestabilizar o dia-a-dia do vosso amigo aqui. É verdade. E assim fui levando 42 primaveras invernais de outonos veranistas. Será possível? Acredite se quiser. É muito difícil chegar tão tarde, mas ainda em tempo, à conclusão que, em certos setores da existência, ainda reflito mais ou menos exatamente como aos oito ou nove anos de idade. Pode? Não sou psicólogo, nem pretendo ser, mas já deu para notar que, em muitos aspectos, segui com a vida comportando-me baseado nos mesmos esquemas infantis que permearam meus iniciais momentos de jornada.

Vejam só amigos leitores se tem cabimento. Segundo o profissional que analisa esta cachola perdida, ainda recorro à certas escapulidelas mentais típicas da infância. Guardando as devidas proporções cronológicas e circunstanciais, obviamente, é como se, na maior parte do tempo, eu passeasse por um shopping existencial, abrindo o maior berreiro sempre que minha vontade marmanjamente petiz não é satisfeita... Por estas e por outras é que tenho uma enorme dificuldade de desbaratar alguns nós que impedem o meu crescimento depois de grande. E, pelo que o meu guia de psique falou, muita gente passa pelo mesmíssimo probleminha, só que, ou não tem consciência alguma, ou, como não chega a atrapalhar tanto ou impedir o ir e vir cotidiano, essa parcela de viventes acaba deixando quieto, não vendo lá muita necessidade de chafurdar o baú para resolver a questão.

Às vezes dá vontade de desistir e sair correndo, credo. Como pode caber tanta caraminhola em um cérebro só, né não? Como será que conseguimos complicar tanto algumas coisas que para outros aparentemente são tão simples? Que coisa maluca, viu. Mas eu chego lá.



Escrito por Silvio Alvarez às 11h24
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O Processo de Gianecchinização

O Perdido na Metrópole está ficando insuportável, no bom sentido, lógico - se é que isso é possível. Eufórico com a sua turbinada vital, deflagrada ao resolver fazer terapia, nosso tropicante amigo mergulha agora no que classificou de processo de gianecchinização.

Como a auto-estima do referido escrevinhador-arteiro andava mais baixa que miniatura de nano anão pigmeu, ele tratou logo de aproveitar a nova fase e dar também uma garibada básica no visual. De qualquer forma, sabe que bem mais igualmente importante que a recauchutada externa é o trato que tem dado nas entranhas das minúcias do seu ser.

Eu não tinha nem idéia por dadonde começar, juro, já que por culpa da famigerada depressão que ficou um tempão indo e vindo,  passei a não ligar nem um pouco para o visual da minha desestrutura humana. Sabe-se lá desde quando. Com o passar do tempo, nem aí para o andar da carruagem fashion,  transformei-me em alguém tão relaxado quanto um Antonio Ermírio de Moraes em férias numa ilha deserta no litoral da Bahia.

Julguei por bem começar a reforma geral pelo cabelo. A  exemplo do que fiz às vésperas da reportagem da TV Vanguarda, no ano passado, tornei a chamar o Alex. Cotado entre os cabelereiros mais requisitados de Joanópolis, todos os dois, Alex já chegou disposto a operar uma verdadeira revolução no meu visual. Eu tomei o cuidado de procurar em revistas algumas referências do que eu queria, daquelas que de tão fashionmente na moda a gente não consegue nem saber do que se trata. Optei por um penteado despojado, do tipo "base aliada do governo", no qual os fios não se entendem, ficam todos desencontrados tadinhos. É aquele penteado que não precisa nem pentear, que despenca sobe a cabeça. Aquele, bem moderno, que os modelos internacionais adoram. Imaginem só como fiquei chique. É claro que tomei o cuidado de perguntar antes ao Alex se tal opção não ficaria ridícula em um marmanjo grisalho com mais de 40 anos. Não é que fiquei mesmo biitim?

Além da recauchutagem capilar, a fim de estimular ainda mais o aprimoramento do meu amor próprio, julguei por bem implementar em meu dia-a-dia um ritual típico de um metro-sexual. Basta de esculhambação! "Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim". Daqui para frente, serei tão vaidoso, mas tão deverasmente vaidoso que o rótulo mais conveniente que caberá a este vosso amigo será o de  quilômetro-sexual.

Ousei experimentar o óleo que minha mãe costuma passar no corpo depois do banho. Todavia, creio que exagerei na dose, confesso. Está certo que o amor próprio é importante, mas fiquei tão deverasmente besuntado de Paixão que temi escorregar pelo ralo do banheiro. Passarei também a fazer a barba todos os dias. Normal? Com minha peculiar e declarada falta de paciência, este aparente detalhe pode ser considerado um milagre. Também tomei a decisão de não usar mais roupa-flanela em casa.  O que é uma roupa flanela? É aquela que, de tão velha, já está na hora de passar da condição de vestuário à de utensílio de limpeza. 



Escrito por Silvio Alvarez às 14h36
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